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Deslizamento em Aterros Sanitários

Mariana Carvalho e Ísis Neves, graduandas em Engenharia Ambiental pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os deslizamentos de terra são fenômenos geológicos marcados pelo deslocamento de massas de solo, rochas e/ou detritos em terrenos inclinados. Embora possam ocorrer naturalmente em encostas, também podem ser observados em locais modificados ou construídos pela ação humana, como em áreas de disposição de resíduos sólidos, tais como aterros sanitários e lixões. 

Essa realidade revela a importância de compreender as causas e consequências dos deslizamentos nesses locais, que envolvem tanto fatores naturais quanto humanos sobre o meio ambiente.

Para compreender esse fenômeno, precisamos antes, entender como ocorre a disposição de lixo no país.

A disposição de lixo no Brasil

De acordo com a ABREMA (2024), o Brasil produz cerca de 80 milhões de toneladas de lixo por ano, o que, em média,  corresponde a 382 quilos de resíduos descartados por pessoa no país durante o ano.

Tirando o que vai para reciclagem, compostagem, queima, ou o que é jogado em terrenos e na rua irregularmente, são 69,3 milhões de toneladas. Pouco mais da metade vai para aterros sanitários, que são áreas preparadas para receber e tratar o lixo. E o destino de 41% desses resíduos são os lixões, montanhas de resíduos a céu aberto que, por lei, deveriam estar totalmente extintas até agosto de 2024. Mas ainda fazem parte do cenário urbano de três em cada dez municípios, segundo o IBGE.

Nesse contexto, a coleta seletiva surge como uma das principais alternativas para reduzir o volume de resíduos enviados a aterros e lixões, contribuindo para a preservação ambiental e a diminuição dos riscos geológicos.

Ao separar materiais recicláveis, como plástico, papel, vidro e metal, é possível direcioná-los para centrais de triagem e cooperativas, que os encaminham às indústrias recicladoras. Já os resíduos orgânicos podem ser aproveitados por meio da compostagem, reduzindo a quantidade de lixo descartado incorretamente. Dessa forma, a adoção da coleta seletiva não apenas favorece a sustentabilidade, mas também representa um passo essencial para mitigar os efeitos negativos do descarte inadequado sobre o solo e as comunidades.

Imagem Ilustrativa – Revista Época.
Imagem Ilustrativa – Site Agir Ambiental.

No caso dos aterros sanitários, a base do local de disposição do lixo é preparada para evitar a contaminação do solo e proteger as águas subterrâneas. Ali, os resíduos são dispostos em camadas e cobertos por terra e materiais impermeáveis, que ajudam a reduzir odores e o contato com o meio externo. 

Além disso, são instalados sistemas de drenagem para captar o chorume, líquido resultante da decomposição do lixo, e o biogás gerado, de modo a minimizar impactos ambientais. Essas medidas tornam os aterros sanitários uma alternativa muito mais segura em relação aos lixões, embora ainda representem um desafio pela grande quantidade de resíduos recebidos diariamente.

Imagem: Aterro Sanitário no Município de Jacareí – São Paulo – onde a Câmara do Município aprovou um plano diretor que autoriza que outros municípios utilizem o aterro sanitário de Jacareí mediante autorização municipal e do órgão estadual competente, além de pagamento de preço público e do atendimento às condições estabelecidas.

Se o lixo coletado vai para os lixões, por outro lado, os resíduos são simplesmente despejados em áreas sem qualquer preparo ou preocupação ambiental. Mesmo proibidos pela Lei nº 12.305/10, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), eles ainda existem em em grande quantidade em várias regiões do país, representando sérios riscos à saúde pública e ao meio ambiente. 

Já em casos de disposição em aterros controlados, observa-se um “meio termo”, pois essa modalidade é uma etapa intermediária entre o lixão e o aterro sanitário. Nela, os resíduos são cobertos por terra para reduzir os impactos negativos, mas não há impermeabilização do solo nem sistemas adequados de drenagem e tratamento de líquidos e gases, o que a torna uma alternativa temporária e insuficiente frente às exigências ambientais da PNRS.

Imagem: Esquema conceitual de um aterro sanitário – Site Transporte e Locações.
Imagem: Despejo de lixo em lixões formando montanhas de rejeitos – Site Partido Verde.

Segundo a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (2024), apenas 29% dos municípios brasileiros utilizam aterros sanitários, onde há planejamento de despejo adequado. Em contrapartida, 32% dos municípios ainda utilizam lixões, e outros 19%, são aterros controlados.

Em um parâmetro regional, onde os índices variam conforme o estágio de desenvolvimento social e econômico de cada estado, temos a relação dos municípios que possuem o lixão como unidade de disposição final dos resíduos sólidos: (57,7%) na região Norte, (33,3%) no Nordeste, (1,8%) no Sul e (7%) no Sudeste. 

Imagem Ilustrativa – Fonte IBGE, 2024.
Mas o que os deslizamentos tem a ver com os aterros sanitários e lixões?

Com o passar do tempo, tanto nos aterros quanto nos lixões, a disposição constante de resíduos forma verdadeiras “montanhas de lixo”. Quando essa massa formada perde a estabilidade, ocorre o deslizamento, normalmente envolvendo  um grande volume de resíduos que se desloca em alta velocidade, podendo impactar diretamente as pessoas e casas que existirem no entorno, além de causar sérios danos ambientais.

Nos aterros sanitários, uma das principais causas de deslizamentos é a drenagem ineficaz. Como já foi dito, a decomposição dos resíduos gera líquidos e gases e, se não houver um sistema adequado para escoar esse chorume e liberar o biogás gerado, a pressão dentro deste grande maciço de lixo vai aumentando até ultrapassar o limite da estabilidade do aterro. Em períodos de chuva intensa, o problema piora, já que a água se infiltra, aumenta o volume de chorume e eleva ainda mais a pressão interna.

Outro fator que influencia fortemente a ocorrência de deslizamentos nessas estruturas é a altura alcançada pelos aterros. Quanto mais camadas de lixo são adicionadas, maior é o peso sobre as camadas inferiores e, consequentemente, maior a pressão interna dentro dessa grande massa de lixo. 

Se o aterro não tiver uma estrutura muito bem projetada e preparada, e se o alteamento, processo de deixar o aterro mais alto a fim de aumentar sua capacidade de armazenamento de lixo, não for feito corretamente, o sistema pode não suportar toda a pressão e desabar. 

 

A seguir, apresentamos três casos que ficaram conhecidos sobre o tema:

1) Morro Bumba, Niterói:

O Morro do Bumba, em Niterói, município da cidade do Rio de Janeiro, é uma favela conhecida pela trágica catástrofe de 2010. O deslizamento ocorreu em 6 de abril de 2010, após uma semana de chuvas intensas, soterrando dezenas de casas e matando 48 pessoas, deixando centenas de desabrigados. 

O desastre aconteceu devido a um deslizamento de um antigo lixão abandonado, cuja baixa estabilidade foi potencializada por chuvas intensas naquele dia. Desde então, a área da tragédia foi transformada em praça, e famílias que moravam na região foram reassentadas em outros locais, como o Conjunto Habitacional Viçoso Jardim.

Imagem: Reportagem G1 “Tragédia do Bumba completa 5 anos e ainda há famílias em risco, no RJ”, abril 2015.
2) Padre Bernardo, Distrito Federal:

O evento é recente: ocorreu em junho deste ano, 2025, no município de Padre Bernardo, no entorno do Distrito Federal. 

O referido local deveria funcionar como um aterro sanitário, administrado pela empresa Ouro Verde,  mas, na prática, atuava como um grande lixão, já que apresentava uma série de irregularidades e a empresa não possuía licença ambiental. O deslizamento não deixou feridos, mas contaminou o Córrego Santa Bárbara e o Rio do Sal, que passam próximos à área. 

Além disso, moradores que utilizavam poços artesianos relataram problemas de saúde após o episódio, evidenciando os danos que situações como essa trazem para o meio ambiente e para a população.

Imagem: Reportagem SBT Brasil “Deslizamento no Município de São Bernardo”, junho 2025.
3) Aterro Bandeirantes, São Paulo:

O caso do Aterro Bandeirantes, em São Paulo, aconteceu em junho de 1991 e registrou o primeiro grande deslizamento de aterro sanitário no Brasil. Cerca de 65 mil metros cúbicos de resíduos deslizaram até a base do aterro, chegando próximo à Rodovia dos Bandeirantes. 

 

O deslizamento aconteceu por volta das 9h30 do dia 18 de junho. Funcionários haviam notado instabilidade na pilha de resíduos nas primeiras horas da manhã, o que lhes deu tempo para tirar as máquinas e evacuar a área, evitando que pessoas fossem diretamente impactadas.

 

Porém o desastre ambiental não foi evitado, resultando na contaminação do córrego Santa Bárbara, usado por agricultores da região.

Imagem: Aterro Bandeirantes, em São Paulo.
O que deve ser feito?

Para que deslizamentos em aterros sanitários e lixões sejam evitados, é essencial o monitoramento geotécnico, inspeções de campo e a garantia de  uma correta operação.

 

De acordo com o artigo “Global study on slope instability modes based on 62 municipal solid waste landfills” (2020) – em português: “Estudo global sobre os modos de instabilidade de taludes baseado em 62 aterros sanitários municipais de resíduos sólidos” -, que evidencia  a instabilidade dos taludes destes aterros de resíduos está fortemente ligada a níveis elevados de chorume e à ausência de controle ou drenagem do biogás. Em 62 aterros analisados em 22 países, o nível de chorume elevado foi o principal fator de falha (cerca de 40 % aproximadamente). 

Assim, a adoção de sistemas de drenagem robustos de chorume e de biogás, taludes com inclinação adequada e monitoramento geotécnico constante são essenciais para garantir a estabilidade de aterros e evitar deslizamentos relacionados a resíduos.

Os aterros são projetados para serem soluções seguras e garantir a correta disposição final do lixo coletado. No entanto, práticas e manutenção inadequada podem contribuir para transformar um aterro em lixões, ampliando os riscos sociais, ambientais, além de, potencialmente, causarem deslizamentos no futuro.

Mas sempre é bom lembrar que esses riscos também podem ser reduzidos se a sociedade gerar cada vez menos lixo, reciclando, reaproveitando e reusando os resíduos.  

 

Fontes:

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RESÍDUOS E MEIO AMBIENTE. Produção de lixo por habitante aumenta no Brasil. São Paulo, SP: ABREMA, 11 dez. 2024. Disponível em: https://www.abrema.org.br/2024/12/11/producao-de-lixo-por-habitante-aumenta-no-brasil/. Acesso em:29 out.2025.

 

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RESÍDUOS SÓLIDOS E LIMPEZA PÚBLICA – ABLP. Revista Limpeza Pública. São Paulo: ABLP, n. 101, 1º e 2º trim. 2019. ISSN 1806-0390. Disponível em: <https://www.ablp.org.br/revista/edicao_0101.pdf\>. Acesso em: 28 ago. 2025.

 

G1. Desabamento de lixão em Goiás. G1 Goiás, 20 jun. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/go/goias/noticia/2025/06/20/desabamento-de-lixao-contaminou-rio-em-goias-diz-secretaria-do-meio-ambiente.ghtml. Acesso em: 28 ago. 2025.

BAND. Lixão irregular desaba em Goiás. YouTube, 20 jun. 2025. Disponível em: https://youtu.be/008skZWa4F8?si=xxhUdzns3aMwAD3H. Acesso em: 28 ago. 2025.

BRASIL ESCOLA. Deslizamento de terra: causas e prevenção. Brasil Escola, 17 ago. 2008. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/deslizamentos-encostas.htm. Acesso em: 28 ago. 2025.

ATR. Formas de destinação do lixo. ATR Resíduos, 16 abr. 2024. Disponível em: https://atrsresiduos.com.br/voce-conhece-as-variadas-formas-de-destinacao-do-lixo-que-produzimos/. Acesso em: 28 ago. 2025.

SÃO PAULO (Estado). Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística. Aterro sanitário. Prateleira Ambiental, 4 jul. 2023. Disponível em: https://semil.sp.gov.br/educacaoambiental/prateleira-ambiental/aterro-sanitario/. Acesso em: 28 ago. 2025.

CEARÁ (Estado). Secretaria do Meio Ambiente. Produção de lixo no Brasil e economia circular. 18 jun. 2024. Disponível em: https://www.sema.ce.gov.br/2024/06/18/brasil-produz-80-milhoes-de-toneladas-de-lixo-todos-os-anos-e-precisa-da-economia-circular-para-transformar-este-problema-em-geracao-de-emprego-e-renda/. Acesso em: 28 ago. 2025.

 

CÂMARA MUNICIPAL DE JACAREÍ. Câmara vota projeto que permite ao aterro sanitário receber resíduos de outras cidades. Câmara Municipal de Jacareí, 2025. Disponível em: https://www.jacarei.sp.leg.br/geral/camara-vota-projeto-que-permite-ao-aterro-sanitario-receber-residuos-de-outras-cidades/. Acesso em: 14 set. 2025.

 

PARTIDO VERDE. Descubra quais são os problemas causados pelos lixões ao meio ambiente. Partido Verde, 2023. Disponível em: https://pv.org.br/descubra-quais-sao-os-problemas-causados-pelos-lixoes-ao-meio-ambiente/. Acesso em: 14 set. 2025.

 

AGÊNCIA IBGE DE NOTÍCIAS. MUNIC 2023: 31,9% dos municípios brasileiros ainda despejam resíduos sólidos em lixões. Agência de Notícias IBGE, 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/41994-munic-2023-31-9-dos-municipios-brasileiros-ainda-despejam-residuos-solidos-em-lixoes#:~:text=MUNIC%202023:%2031%2C9%25,em%20lix%C3%B5es%20%7C%20Ag%C3%AAncia%20de%20Not%C3%ADcias. Acesso em: 14 set. 2025.

 

Metrópoles. Montanha de lixo de aterro desaba no Entorno do DF; veja vídeo. Metrópoles, 2025. Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/montanha-de-lixo-de-aterro-desaba-no-entorno-do-df-veja-video. Acesso em: 14 set. 2025.

 

PANORAMA REAL. Deslizamento de terra em Porto de Manacapuru foi causado por aterros inadequados, aponta relatório. Panorama Real, 2025. Disponível em: https://panoramareal.com.br/deslizamento-de-terra-em-porto-de-manacapuru-foi-causado-por-aterros-inadequados-aponta-relatorio/. Acesso em: 14 set. 2025.

Imagem Ilustrativa – Site Agir Ambiental. Disponível em: https://agirambiental.org.br/panorama-dos-programas-de-coleta-seletiva-desenvolvidos-por-prefeituras/. Acesso em: 15 set. 2025.

 

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